segunda-feira, 3 de dezembro de 2012



Na hora seguinte, Maria Antonieta e seu pai dirigiram-se a casa da família Gonçalves, onde encontraram uma entrada enorme com jardins colossais e com flores em todos os cantos. Maria Antonieta sentia-se encantada com tanta riqueza e com a desmedida casa que se encontrava à sua frente.
-Pai, isto é coisa de outro Mundo. Afirmou Maria encantada.
-Sim deveras. Mas anda, não fiques para trás. Respondeu José.
Entretanto aparece o mordomo da família. Um homem que ronda os 60 anos, o chefe de todos os funcionários. O seu aspeto transmite rigor e disciplina.
-O que fazeis vós, numa propriedade privada como esta? Não sabeis que é proibido?
-Calma Senhor. Meu pai e eu só estamos aqui porque queremos falar com o Doutor Gonçalves. Admitiu Maria Antonieta assustada.
-Sim. Queremos falar com o Doutor. Pode levar-nos até ele? Concordou José.
Nisto, o mordomo levou-os até à entrada da casa.
-Esperem aqui. Vou perguntar ao Doutor se ele os pode receber…
Quando o mordomo virou as costas, Maria Antonieta dirigiu-se a seu pai:-Pai, isto não é demasiado catita para mim? Como me vou acomodar aqui?
-Cala-te. O mordomo vem aí! Respondeu José.
-Podem entrar. O Doutor espera-vos na sala de visitas. Disse o mordomo Lúcio.
Enquanto caminhavam em direcção à sala de visitas Maria Antonieta continuava encantada com toda a riqueza que observava. A entrada possuía uma enorme escadaria do lado direito e jarrões altíssimos com as melhores flores. As paredes eram revestidas de tapeçaria de todos os padrões e de quadros com imagens de Salazar. Ao fundo da entrada existia também uma pequena mesa com pratas.
À medida que iam caminhando, iam passando por várias repartições da casa, até que chegaram à sala de visitas.
-Deixo-vos. Retorquiu o mordomo.
Ao fundo da sala estava de pé António Gonçalves, Doutor Gonçalves, como todos o tratavam.
-Entrem, entrem. Querem tomar alguma coisa? Perguntou António.
Maria Antonieta estava embasbacada com toda aquela luxuria mas lá foi atrás de seu pai.
-Não, não queremos nada. Sabe Doutor, a minha menina, a Maria Antonieta, precisa de um trabalho e o jornaleiro disse-me que vós precisáveis de uma criada. Precisais?
-Sim, de facto. Nós temos uma cozinheira, um mordomo, um jardineiro, um motorista e duas criadas. Uma delas despediu-se, pois teve de ir para a sua terra e por isso pedi aos empregados para passarem a palavra. -Explicou o doutor António- Mas então, como te chamas rapariga?
-Maria Antonieta Senhor.
-Que idade tens?
-18 Senhor.
-E estais pronta para trabalhar para esta família?
-Sim estou.
-Pois bem, não vejo porque não contratá-la. Já sabes menina, terás de obedecer a tudo o que o mordomo te disser. Não admito aqui em casa faltas de respeito. Estamos de acordo?
  -Sim sim. Não se apoquente. Eu sou bem-educada e farei tudo o que me disser.
-Quanto ao dinheiro… Retende José.
- Ah. Não se preocupe. Sou um Homem justo. Pagarei o justo. Responde António.
-Já agora… Nem disse meu nome… Desculpe! Chamo-me José, doutor.
 -Muito gosto José. Eu sou o António. Quanto a ti menina- dirigindo-se a Maria Antonieta- podes começar quando quiseres.
-Ela já pode ficar aqui. Respondeu José.
-Sim sim. Disse Maria Antonieta.
-Lúcio? Chamou António.
-Sim doutor.
-Leva a Maria Antonieta e apresenta-a ao resto dos criados. É a nossa nova criada. Depois traz-me um café, por favor.
-Então, eu despeço-me. Muito obrigada pela oportunidade meu Senhor. Agradeceu José.
-Ora essa. Reconheceu António.
José saiu e Maria Antonieta seguiu o mordomo.




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quinta-feira, 29 de novembro de 2012



- Ele é um tipo todo catita, mulher. É militar do…do… Movimento das Forças Armadas. É isso! É assim que eles se chamam.
- Hei láaa! Isso é gente de muita grana e muito catitas. Um rapaz desses não olhava para a nossa Maria Antonieta. Quem é que olha para uma sopeira de avental enfiado à cintura? Ninguém Homem. Essa gente é da alta. Não é como nós que damos tudo para ter um prato de sopa quente para comer.
- Bem, mas não penses mais nisso. Vamos dormir que já se faz tarde Ermelinda.
- Até amanha. Disse Ermelinda bocejando.
- Até amanha mulher. Respondeu José desligando a luz do candeeiro a gás.
No dia seguinte, no fim de toda a família ter tomado o pequeno-almoço, José saiu à rua para saber das notícias do dia enquanto o resto da família retomou aos seus trabalhos.
-Maria Antonieta? Ermelinda? Chamava José abafando cada palavra.
-Diz homem! Respondeu Ermelinda bastante preocupada com sua filha ao seu lado.
-Trago notícias fresquinhas. Arranjei trabalho para a Maria Antonieta! Exclamou ele com um enorme sorriso.
-A sério? Responderam as mulheres em coro.
-Sim. É para servir numa casa de ricos, no centro do Rossio.
-Que bom pai! Finalmente vou poder ajudar a família. Disse Maria Antonieta feliz com os olhos a brilhar.
- Sim, graças a Deus. A nossa menina vai começar a trazer algum dinheiro e vamos conseguir recompor melhor a nossa vida- Comentou Ermelinda- Mas como é que soubeste que precisavam de uma criada? Continuou.
-Foi o jornaleiro que passou por mim e me disse que os Gonçalves precisavam de uma criada.
- Os Gon… Gon… Gonçalves? Perguntou Ermelinda muito inquietada.
- Sim, tu sabes quem são. São aqueles ricaços lá de baixo… Explicou José.
- Sim sei. Dito isto, Ermelinda correu para a cozinha.
- Pai, quando começo ao trabalho?
- Hoje vou lá contigo a casa deles, tenho de acertar uns pormenores de dinheiro e assim. É que eu sou pobre mas não sou burro e quero que a minha família seja paga como manda a lei.



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segunda-feira, 26 de novembro de 2012



Quando Maria percebeu que sua avó a procurava, desceu de imediato as escadas e foi ao seu encontro.
- Avó, minha doce avó. Como tens estado tu?
- Bem minha filha bem. Mas agora ajuda-me lá a subir as escadas que este reumatismo dá cabo de mim. Sabes, dantes a tua avó era uma mulher rija, cheia de força. Força que até dava para vender. Mas, desde que morreu o Amadeu, o teu avô, comecei a enfraquecer por dentro e por fora. Já não sou a mesma! Mas diz-me, como estás querida?
- Oh avó. Conheci um rapaz… Um rapaz demasiado bonito para mim! Respondeu Maria Antonieta à avó com um tom de voz avassalador.
- Oh meu amor. Tu és tão bonita! – Passando-lhe os seus dedos enrugados pelo cabelo encaracolado de Maria Antonieta – Não digas uma coisa dessas! Olha e diz-me lá… esse tal rapaz… hã… onde o conheces-te? Sabes o nome dele? Onde mora ele? É do Rossio? Perguntou a Lucinda com enorme curiosidade.
- Não avó. Não sei nada dele! Nada de nada. Respondeu Maria continuando a estender a roupa.
- Como não sabes? Não se falaram?
- Não. A única coisa que tenho dele é isto - Meteu a mão no bolso do avental e tirou o cravo – Vês? Só isto… Concluiu Maria Antonieta.
- Mas que raio… Não estou a entender filha. Disse a avó Lucinda baralhada.
- Avó foi durante a revolução. A gente só olhou um no outro, nada mais. Ele depois passou num tanque e entregou-me este lindo cravo. Dito isto fez uma pirueta com o cravo junto ao peito.
- Que bonito Maria Antonieta! Mas assim vai ser complicado de descobrir quem é ele. Cascais é muito grande. Aliás, nem sabes se ele vive cá em Lisboa.
- Vive minha avó. Meu coração diz-me que sim e ele nunca me atraiçoa. Responde Maria Antonieta convencida.
Enquanto a avó e a neta trocavam impressões sobre o tal rapaz, a mãe de Maria Antonieta, Ermelinda, ficou a ouvir toda a conversa entre ambas ficando curiosa.
No fim de jantarem, Maria Antonieta ficou na cozinha a acabar de limpar os últimos pratos, enquanto sua mãe e seu pai e seus irmãos já se tinham ido deitar.
Quando já estavam no quarto, Ermelinda confrontou o seu marido, José, com a conversa que ouviu entre sua mãe e a sua filha.
- Hoje ouvi uma conversa entre a Maria Antonieta e a minha mãe que me deixou com a pulga atrás da orelha…
- Então o que é? Perguntou José com alguma curiosidade.
- Então não é que a catraia estava a dizer à minha mãe que conheceu um rapaz durante a revolução que lhe despertou interesse? Ela estava muito curiosa para saber quem era e pareceu-me apaixonadita.
 - Olha lembras-te quando eu e ela chegamos cá a casa esta tarde?
 - Sim. O que tem?
 - Ela veio esquisita durante todo o caminho e foi por causa do tal rapaz que até lhe ofereceu um cravo. Eu vi com estes olhinhos que a terra há-de comer, o quão eles se olhavam. Isto ainda nos vai trazer problemas, mulher. Afirmou José muito convicto.
- Mas tu queres ver… O raio da catraia já anda a espalhar charme e nem sabe quem é o rapaz.



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domingo, 25 de novembro de 2012



- Não, Maria Antonieta. Eu não saiu daqui enquanto aqueles malditos não declarem democracia e não se puserem daqui para fora.
Dito isto puxou-se para a frente e rebentando de raiva gritou, “Democracia!”
Nisto Maria olha em seu redor com mais atenção e voltou a encontrar aqueles olhos azuis que tanto a empolgavam. Aproveitou toda esta situação e dirigiu-se a seu pai:
- Bem, já que quer ficar aqui, eu também fico.
- Como queiras! Respondeu José.
Durante toda aquela tarde os jovens não tiraram o olhar um do outro. Um olhar meigo, carinhoso. Parecia que já se conheciam há muito tempo e que tinham tanto para dizer um ao outro. Era inevitável a troca de olhares!
De repente, ouvem-se as palmas e os gritos de alegria. Marcelo Caetano tinha-se rendido e Portugal deixou de ser um país sob a política ditatorial para ser um país livre de ideias, de pensamentos, em que as mulheres teriam o seu direito ao voto e em que poderiam trabalhar assim como os Homens. Portugal seria um país com muito para viver e dar a viver!
Maria Antonieta fixada no olhar do jovem nem reparou no que se passava à sua volta. José com olhos a brotarem de lágrimas dirigiu-se a Maria:
- Filha somos livres filha! Finalmente Meu Deus!
- Ah? O que foi pai? Porque é que estão todos a bater palmas?
- Não vês? Não ouves? Maria Antonieta, filha, somos livres. Já não vivemos em ditadura. Aquele bandido saiu do poder!
-Ah. Não tinha percebido que tudo já tinha acabado.
O militar que roubou o olhar a Maria Antonieta passou por eles num dos tanques e mandou o tanque parar. Debruçou-se sobre Maria Antonieta, deu-lhe o cravo que tinha em suas mãos e disse: - Estamos livres…
Maria Antonieta ficou fixada no rapaz até que o tanque começou a andar. Ela percebeu que ele lhe queria dizer mais alguma coisa mas que não conseguiu.
José ao ver todo aquele aparato agarrou o braço da filha e disse: - Anda, já vimos o que tínhamos a ver aqui. Anda!
- Mas Pai… -Reclamava Maria Antonieta- Ainda não foram todos embora…
- Vamos, já disse!
Enquanto estavam a caminho de casa, o pai de Maria Antonieta percebeu que aquele rapaz tinha mexido com sua filha e não ficou nada satisfeito com isso.
“Mas que raio… Já me querem roubar a catraia hã? E logo um galã daqueles… Aquilo não é para o bico dela!” Pensava José.
Maria Antonieta percorreu todo o caminho para casa pensando no militar e na sua beleza. Passou todo o tempo a cheirar o cravo que ele lhe dera.
Quando chegaram a casa, Ermelinda, a mãe de Maria Antonieta, estava com os nervos em franja. Apontando-lhes com o indicador: - Espero que não me façam mais nenhuma partida destas que meu coração não aguenta estas coisas. Já soube que estamos em liberdade mas isso não vos dá o direito de não me darem noticias.”
 José com um sorriso: - Oh mulher tem calma, está tudo bem connosco!
- O que é que se passa com a catraia, homem?
- Olha veio assim o caminho todo. Não pára de cheirar o raio da flor!
- Oh Maria Antonieta – disse Ermelinda – não te esqueças que tens de ir estender as roupas lá cima ao arame.
Não obtendo resposta a mulher insistiu:- Estás a ouvir-me rapariga?
- Já estou a ir! Retorquiu Maria Antonieta de cabeça baixa.
Enquanto Maria subia até ao arame que se encontrava no cimo da casa pensava “Qual será o nome dele? Era tão bonito…!”
- Onde está a minha netinha hã? Oh Ermelinda, onde está ela? – Perguntava a avó Lucinda que a Maria Antonieta tanto adorava.



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