Quando Maria percebeu que sua
avó a procurava, desceu de imediato as escadas e foi ao seu encontro.
- Avó, minha doce avó. Como
tens estado tu?
- Bem minha filha bem. Mas
agora ajuda-me lá a subir as escadas que este reumatismo dá cabo de mim. Sabes,
dantes a tua avó era uma mulher rija, cheia de força. Força que até dava para
vender. Mas, desde que morreu o Amadeu, o teu avô, comecei a enfraquecer por
dentro e por fora. Já não sou a mesma! Mas diz-me, como estás querida?
- Oh avó. Conheci um rapaz… Um
rapaz demasiado bonito para mim! Respondeu Maria Antonieta à avó com um tom de
voz avassalador.
- Oh meu amor. Tu és tão
bonita! – Passando-lhe os seus dedos enrugados pelo cabelo encaracolado de
Maria Antonieta – Não digas uma coisa dessas! Olha e diz-me lá… esse tal rapaz…
hã… onde o conheces-te? Sabes o nome dele? Onde mora ele? É do Rossio?
Perguntou a Lucinda com enorme curiosidade.
- Não avó. Não sei nada dele!
Nada de nada. Respondeu Maria continuando a estender a roupa.
- Como não sabes? Não se
falaram?
- Não. A única coisa que tenho
dele é isto - Meteu a mão no bolso do avental e tirou o cravo – Vês? Só isto…
Concluiu Maria Antonieta.
- Mas que raio… Não estou a
entender filha. Disse a avó Lucinda baralhada.
- Avó foi durante a revolução.
A gente só olhou um no outro, nada mais. Ele depois passou num tanque e
entregou-me este lindo cravo. Dito isto fez uma pirueta com o cravo junto ao
peito.
- Que bonito Maria Antonieta!
Mas assim vai ser complicado de descobrir quem é ele. Cascais é muito grande.
Aliás, nem sabes se ele vive cá em Lisboa.
- Vive minha avó. Meu coração
diz-me que sim e ele nunca me atraiçoa. Responde Maria Antonieta convencida.
Enquanto a avó e a neta
trocavam impressões sobre o tal rapaz, a mãe de Maria Antonieta, Ermelinda,
ficou a ouvir toda a conversa entre ambas ficando curiosa.
No fim de jantarem, Maria
Antonieta ficou na cozinha a acabar de limpar os últimos pratos, enquanto sua
mãe e seu pai e seus irmãos já se tinham ido deitar.
Quando já estavam no quarto,
Ermelinda confrontou o seu marido, José, com a conversa que ouviu entre sua mãe
e a sua filha.
- Hoje ouvi uma conversa entre
a Maria Antonieta e a minha mãe que me deixou com a pulga atrás da orelha…
- Então o que é? Perguntou
José com alguma curiosidade.
- Então não é que a catraia
estava a dizer à minha mãe que conheceu um rapaz durante a revolução que lhe
despertou interesse? Ela estava muito curiosa para saber quem era e pareceu-me
apaixonadita.
- Olha lembras-te quando eu e ela chegamos cá
a casa esta tarde?
- Sim. O que tem?
- Ela veio esquisita durante todo o caminho e
foi por causa do tal rapaz que até lhe ofereceu um cravo. Eu vi com estes
olhinhos que a terra há-de comer, o quão eles se olhavam. Isto ainda nos vai
trazer problemas, mulher. Afirmou José muito convicto.
- Mas tu queres ver… O raio da
catraia já anda a espalhar charme e nem sabe quem é o rapaz.
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