quinta-feira, 29 de novembro de 2012



- Ele é um tipo todo catita, mulher. É militar do…do… Movimento das Forças Armadas. É isso! É assim que eles se chamam.
- Hei láaa! Isso é gente de muita grana e muito catitas. Um rapaz desses não olhava para a nossa Maria Antonieta. Quem é que olha para uma sopeira de avental enfiado à cintura? Ninguém Homem. Essa gente é da alta. Não é como nós que damos tudo para ter um prato de sopa quente para comer.
- Bem, mas não penses mais nisso. Vamos dormir que já se faz tarde Ermelinda.
- Até amanha. Disse Ermelinda bocejando.
- Até amanha mulher. Respondeu José desligando a luz do candeeiro a gás.
No dia seguinte, no fim de toda a família ter tomado o pequeno-almoço, José saiu à rua para saber das notícias do dia enquanto o resto da família retomou aos seus trabalhos.
-Maria Antonieta? Ermelinda? Chamava José abafando cada palavra.
-Diz homem! Respondeu Ermelinda bastante preocupada com sua filha ao seu lado.
-Trago notícias fresquinhas. Arranjei trabalho para a Maria Antonieta! Exclamou ele com um enorme sorriso.
-A sério? Responderam as mulheres em coro.
-Sim. É para servir numa casa de ricos, no centro do Rossio.
-Que bom pai! Finalmente vou poder ajudar a família. Disse Maria Antonieta feliz com os olhos a brilhar.
- Sim, graças a Deus. A nossa menina vai começar a trazer algum dinheiro e vamos conseguir recompor melhor a nossa vida- Comentou Ermelinda- Mas como é que soubeste que precisavam de uma criada? Continuou.
-Foi o jornaleiro que passou por mim e me disse que os Gonçalves precisavam de uma criada.
- Os Gon… Gon… Gonçalves? Perguntou Ermelinda muito inquietada.
- Sim, tu sabes quem são. São aqueles ricaços lá de baixo… Explicou José.
- Sim sei. Dito isto, Ermelinda correu para a cozinha.
- Pai, quando começo ao trabalho?
- Hoje vou lá contigo a casa deles, tenho de acertar uns pormenores de dinheiro e assim. É que eu sou pobre mas não sou burro e quero que a minha família seja paga como manda a lei.



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segunda-feira, 26 de novembro de 2012



Quando Maria percebeu que sua avó a procurava, desceu de imediato as escadas e foi ao seu encontro.
- Avó, minha doce avó. Como tens estado tu?
- Bem minha filha bem. Mas agora ajuda-me lá a subir as escadas que este reumatismo dá cabo de mim. Sabes, dantes a tua avó era uma mulher rija, cheia de força. Força que até dava para vender. Mas, desde que morreu o Amadeu, o teu avô, comecei a enfraquecer por dentro e por fora. Já não sou a mesma! Mas diz-me, como estás querida?
- Oh avó. Conheci um rapaz… Um rapaz demasiado bonito para mim! Respondeu Maria Antonieta à avó com um tom de voz avassalador.
- Oh meu amor. Tu és tão bonita! – Passando-lhe os seus dedos enrugados pelo cabelo encaracolado de Maria Antonieta – Não digas uma coisa dessas! Olha e diz-me lá… esse tal rapaz… hã… onde o conheces-te? Sabes o nome dele? Onde mora ele? É do Rossio? Perguntou a Lucinda com enorme curiosidade.
- Não avó. Não sei nada dele! Nada de nada. Respondeu Maria continuando a estender a roupa.
- Como não sabes? Não se falaram?
- Não. A única coisa que tenho dele é isto - Meteu a mão no bolso do avental e tirou o cravo – Vês? Só isto… Concluiu Maria Antonieta.
- Mas que raio… Não estou a entender filha. Disse a avó Lucinda baralhada.
- Avó foi durante a revolução. A gente só olhou um no outro, nada mais. Ele depois passou num tanque e entregou-me este lindo cravo. Dito isto fez uma pirueta com o cravo junto ao peito.
- Que bonito Maria Antonieta! Mas assim vai ser complicado de descobrir quem é ele. Cascais é muito grande. Aliás, nem sabes se ele vive cá em Lisboa.
- Vive minha avó. Meu coração diz-me que sim e ele nunca me atraiçoa. Responde Maria Antonieta convencida.
Enquanto a avó e a neta trocavam impressões sobre o tal rapaz, a mãe de Maria Antonieta, Ermelinda, ficou a ouvir toda a conversa entre ambas ficando curiosa.
No fim de jantarem, Maria Antonieta ficou na cozinha a acabar de limpar os últimos pratos, enquanto sua mãe e seu pai e seus irmãos já se tinham ido deitar.
Quando já estavam no quarto, Ermelinda confrontou o seu marido, José, com a conversa que ouviu entre sua mãe e a sua filha.
- Hoje ouvi uma conversa entre a Maria Antonieta e a minha mãe que me deixou com a pulga atrás da orelha…
- Então o que é? Perguntou José com alguma curiosidade.
- Então não é que a catraia estava a dizer à minha mãe que conheceu um rapaz durante a revolução que lhe despertou interesse? Ela estava muito curiosa para saber quem era e pareceu-me apaixonadita.
 - Olha lembras-te quando eu e ela chegamos cá a casa esta tarde?
 - Sim. O que tem?
 - Ela veio esquisita durante todo o caminho e foi por causa do tal rapaz que até lhe ofereceu um cravo. Eu vi com estes olhinhos que a terra há-de comer, o quão eles se olhavam. Isto ainda nos vai trazer problemas, mulher. Afirmou José muito convicto.
- Mas tu queres ver… O raio da catraia já anda a espalhar charme e nem sabe quem é o rapaz.



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domingo, 25 de novembro de 2012



- Não, Maria Antonieta. Eu não saiu daqui enquanto aqueles malditos não declarem democracia e não se puserem daqui para fora.
Dito isto puxou-se para a frente e rebentando de raiva gritou, “Democracia!”
Nisto Maria olha em seu redor com mais atenção e voltou a encontrar aqueles olhos azuis que tanto a empolgavam. Aproveitou toda esta situação e dirigiu-se a seu pai:
- Bem, já que quer ficar aqui, eu também fico.
- Como queiras! Respondeu José.
Durante toda aquela tarde os jovens não tiraram o olhar um do outro. Um olhar meigo, carinhoso. Parecia que já se conheciam há muito tempo e que tinham tanto para dizer um ao outro. Era inevitável a troca de olhares!
De repente, ouvem-se as palmas e os gritos de alegria. Marcelo Caetano tinha-se rendido e Portugal deixou de ser um país sob a política ditatorial para ser um país livre de ideias, de pensamentos, em que as mulheres teriam o seu direito ao voto e em que poderiam trabalhar assim como os Homens. Portugal seria um país com muito para viver e dar a viver!
Maria Antonieta fixada no olhar do jovem nem reparou no que se passava à sua volta. José com olhos a brotarem de lágrimas dirigiu-se a Maria:
- Filha somos livres filha! Finalmente Meu Deus!
- Ah? O que foi pai? Porque é que estão todos a bater palmas?
- Não vês? Não ouves? Maria Antonieta, filha, somos livres. Já não vivemos em ditadura. Aquele bandido saiu do poder!
-Ah. Não tinha percebido que tudo já tinha acabado.
O militar que roubou o olhar a Maria Antonieta passou por eles num dos tanques e mandou o tanque parar. Debruçou-se sobre Maria Antonieta, deu-lhe o cravo que tinha em suas mãos e disse: - Estamos livres…
Maria Antonieta ficou fixada no rapaz até que o tanque começou a andar. Ela percebeu que ele lhe queria dizer mais alguma coisa mas que não conseguiu.
José ao ver todo aquele aparato agarrou o braço da filha e disse: - Anda, já vimos o que tínhamos a ver aqui. Anda!
- Mas Pai… -Reclamava Maria Antonieta- Ainda não foram todos embora…
- Vamos, já disse!
Enquanto estavam a caminho de casa, o pai de Maria Antonieta percebeu que aquele rapaz tinha mexido com sua filha e não ficou nada satisfeito com isso.
“Mas que raio… Já me querem roubar a catraia hã? E logo um galã daqueles… Aquilo não é para o bico dela!” Pensava José.
Maria Antonieta percorreu todo o caminho para casa pensando no militar e na sua beleza. Passou todo o tempo a cheirar o cravo que ele lhe dera.
Quando chegaram a casa, Ermelinda, a mãe de Maria Antonieta, estava com os nervos em franja. Apontando-lhes com o indicador: - Espero que não me façam mais nenhuma partida destas que meu coração não aguenta estas coisas. Já soube que estamos em liberdade mas isso não vos dá o direito de não me darem noticias.”
 José com um sorriso: - Oh mulher tem calma, está tudo bem connosco!
- O que é que se passa com a catraia, homem?
- Olha veio assim o caminho todo. Não pára de cheirar o raio da flor!
- Oh Maria Antonieta – disse Ermelinda – não te esqueças que tens de ir estender as roupas lá cima ao arame.
Não obtendo resposta a mulher insistiu:- Estás a ouvir-me rapariga?
- Já estou a ir! Retorquiu Maria Antonieta de cabeça baixa.
Enquanto Maria subia até ao arame que se encontrava no cimo da casa pensava “Qual será o nome dele? Era tão bonito…!”
- Onde está a minha netinha hã? Oh Ermelinda, onde está ela? – Perguntava a avó Lucinda que a Maria Antonieta tanto adorava.



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sábado, 24 de novembro de 2012



O dia ainda não tinha despertado e os militares já percorriam as ruas a pé e em viaturas militares.
Toda esta agitação causou curiosidade por parte do povo. Povo este que saiu à rua para perceber o que se passava.
Quando já toda a gente se tinha apercebido do objetivo das tropas, imediatamente foram prestar auxilio.
Reuniu-se muita gente em frente ao Quartel do Carmo ansiosos por uma resposta ao confronto. Já se ouviam os disparos contra o Quartel e a revolta do povo que gritava “Democracia, Democracia!”
Maria Antonieta encontrava-se no meio de todo aquele enredo com seus pais, José e Ermelinda, que protegiam a filha dos empurrões e dos mais revoltosos. Maria Antonieta estava com medo do que podia acontecer à família com toda aquela revolução. Apertava a mão da mãe em jeito de aflição, de tanto apertar a mãe disse: - Filha tem calma, não te vai acontecer nada de mal.
- Não sei minha mãe, o pai está a gritar no meio dos revoltosos pedindo democracia. Ninguém nos vai ouvir, ninguém se importa connosco!
Não obtendo uma resposta por parte da mãe, Maria Antonieta ficou a observar tudo aquilo que a rodeava.
Momentos depois, chegaram numerosos tanques de guerra ao Quartel. Num deles encontrava-se um militar que chamou especial atenção a Maria Antonieta. Era um jovem que rondava os 20 anos, era alto e possuía um olhar azul muito forte. À primeira vista eram qualidades que Maria Antonieta apreciava num Homem e desde então, não retirou o olhar do tal rapaz e pensou “Ele tem alguma coisa que me atrai…mas, aquilo não é Homem para mim”.
O sol já estava bem lá no alto quando Maria Antonieta e sua mãe voltaram para casa pois Maria tinha de fazer o almoço para os irmãos enquanto sua mãe esfregava com toda a força as roupas no tanque da aldeia.
Quando já tudo parecia mais calmo, Maria Antonieta decidiu ir chamar seu pai que continuava a pés juntos diante do Quartel do Carmo.
Quando lá chegou disse ao pai:
- Pai, volta para casa comigo. Minha mãe nem comeu com tanta preocupação. Estamos todos muito apoquentados consigo!





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